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sexta-feira, 21 de abril de 2017

A CORDA DO CORAÇÃO CIBERNÉTICO DE SUZANA CASTRO
(Um conto de Denio Alves)

"Aqueles que sonham acordados
têm consciência de mil coisas que
escapam aos que apenas sonham
adormecidos."
(Edgar Allan Poe)





Calma. Calma. Calma. O silêncio ainda vai te salvar.

-  Por que você fez isso? Por que??? Eu tentei te explicar. Eu já tentei te fazer entender várias vezes, mas parece que você realmente se recusa! Você não quer entender.

Dr. Almério falava para Suzana. As palavras entravam de um lado da cabeça. E saíam pelo outro. Ouvidos.

- Sorvete é bom e faz bem pros dentes? Ou não? É por causa daquela dorzinha que dá quando encosta no dente, que você estava falando, estava reclamando? - disse a menininha loira que estava sentada na janela. Nossa, parecia até que ela veio do lado de fora, mas como, se aquele era o décimo nono andar, ela tinha descido do terraço ou tinha escalado o prédio para entrar por ali, naquela janela? Pequenina, parecia ter uns 7 anos, aqueles cachinhos dourados com laço vermelho amarrando o vestidinho dela, combinava com o laço. Usava sapatinhos finos, com jeitinho de princesa! Como ela havia aparecido naquela janela, vinda do lado de fora? Ela mostrou pra Suzana o caminho pontilhado que estava dentro da caixa de desenhos, ele levava ao mundo do dragão com asas de três pontas.

E estava tudo colorido muito bonito. O dragão era verde.

- Se... se... você olhar bem aqui... - dizia Suzana para a menininha, dolorosamente, a voz toda embargada, quase provocando um aneurisma emocional de tanto segurar pra não chorar - olha só, menina, se você olhar... Você pode ver que tem um lugarzinho aqui, próximo do umbigo... na minha barriga. Tem uma pontinha que eles... deixaram.

- É? Pera aí... deixa eu ver... Nooooossa! É meeeesmo! Posso encostar?

Suzana começou a soluçar. Os olhos já estavam vermelhos e ensopados.

- Tá. Tá. Tudo bem... pode pegar - choro incontido - Mas por favor, não pega com força, tá bom? Não puxa! Tem que ter muito cuidado com isso aqui
.
"Eu... Eu só queria que você entendesse... Eles deixaram um lugar aqui, um jeito que tem de eu poder controlar. Às vezes as coisas não correm bem... a água não sai da torneira para eu regar o jardim. A lua não aparece na fase que eu estou esperando conforme o livrinho do meu avô... Aí as plantas não crescem. Nada dá certo. Não me obedecem. Então...deixaram uma ponta. Da cordinha. Mas não sai sangue! Não sai! Não sai, eu juro que não sai, tá bom? NÃO SAI SANGUE! Só fizeram isso pra me ajudar, eu sei. Mas sangue não sai não!"

O Sr. Antônio estava lá olhando a lavoura, e tentava adivinhar, pela cor das nuvens, se logo iria chover. Lá dentro da casinha rude, sede simples da fazenda dele, dentro do quarto de casal onde tantos momentos bons ele passou com a falecida, lá estava o vasinho com a orquídea ZPY9.

A orquídea ZPY9. Querida orquídea. 

Orquídea é algo difícil de cuidar.

A menininha acabou nem tendo coragem de tocar naquela pontinha de corda, que era ligada ao misterioso coração cibernético de Suzana - a musa da Nova Era! Mas diva transtornada por profundas obsessões... Antes, preferiu se virar para Suzana, fitar ela bem nos olhos, e dizer assim: "A orquídea pediu para eu te falar, que se você quiser destruir todas as pequenas belas coisas que vocês construíram juntas, tudo bem, ela vai te ajudar". 

 - Existe uma ligação mental entre as pessoas, os objetos, os diversos entes desse mundo? Os viventes e os não-viventes... os inanimados? Muitos cientistas já relacionaram as suas pesquisas ao poder que as coisas inanimadas carregam, por serem receptáculos das energias emocionais de seus donos. Dessa forma, o modo como alguém dirige seu carro traz em si muito da simbologia psíquica que essa pessoa traduz, em seus atos como condutor do veículo. É razoável sim dizer que exercemos influência sobre o meio ao nosso redor, em um nível mental muito acima do que as nossas atuais capacidades cognitivas de assimilação podem, de fato, perscrutar. Esses conceitos sobre os quais verso aqui pertencem a um rumo ainda muito imberbe da ciência... Fazem parte, talvez, de domínios ainda inexplorados da pesquisa metafísica. Percorrem veredas ainda inimagináveis para as nossas tão decantadas verdades acadêmicas... porque não há ainda, de fato, metodologia suficiente ou adequada para qualificar a concretude de suas afirmações. E se partem, de fato, de premissas resilientes ao campo das vãs filosofias, é de se esperar que, assim como em outras épocas as ciências biológicas ou médicas foram também elucubrações experimentais, os elementos hoje tidos como transitórios nas experiências psíquicas, e suscitados por uma grande parte de nossa inteligentsia como meros fenômenos somáticos, possam também adquirir o status de manifestação ativa do inconsciente (ou subconsciente), como força acima das conhecidas leis da física. Mas plenamente capazes de interferir nas mesmas, influenciá-las ou alterá-las.

E Dr. Almério terminou sua preleção para o auditório lotado da universidade, bastante aplaudido. Logo, voltou a colocar seu arreio e ir devorar uma bela cenoura, no estábulo onde morava. Dia seguinte, iriam escovar-lhe o rabo.

Calma. Calma. Calma. E o silêncio ainda vai te salvar.

Então Suzana pegou o vasinho da ZPY9, aquela era uma de suas últimas tentativas, ela tinha que escutar!

- Oi. Tudo bem com você? Aqui estamos nós novamente, hein? Pois é... eu... eu só queria te dizer que já passamos muitos momentos bons juntos, né? E sei que alguns outros, nem tanto. Apenas... queria te pedir desculpas, antes que seja tarde. Me perdoe. Te importunei, e quis algo de você que você não poderia dar. Esse meu coração esquisito talvez padeça de algum mal desconhecido pela ciência, por gostar tanto de você sem muito motivo. Alguma patologia que faz com que, mesmo que você me faça todo o mal, eu queira te fazer todo o bem. E talvez eu também sofra de algo que me afaste... que me faça não querer te ver, porque ver você me vicia em você, e saber que alguns momentos depois não te verei mais me dá uma espécie de mágoa, de sentimento ruim por você não me dar mais atenção, e depois o desespero de querer correr desesperadamente atrás de você. Refletindo assim, talvez eu esteja me afastando de você por não querer mais sofrer a cada momento de nossas despedidas. Por ter a certeza de que, por mais que eu te visse, te olhasse, você nunca daria para mim o que eu esperava de você. Por começar a entender, afinal, que o que os olhos não vêem, o coração não sente. Me lembro que uma vez o teu florir expressou em minha mente que talvez você não merecesse os meus sentimentos por você. Você se lembra do que eu respondi? Que a falta da minha alegria ia te mostrar isso, se você realmente merecia ou não. E então? Você... sente? Consegue saber agora? Fazem falta o meu sorriso, os meus olhares para você? Agora, depois de um certo tempo, acho que você já pode saber... se merece ou não. Acho que muitas coisas chegam a um fim. Ou a uma transformação. As esperanças, as ilusões... Muitas vezes, podem se transformar em outras coisas, outras emoções. Podem encontrar rios em que desaguem de modo fulgurante, gerando outras correntes, outros fluxos... Ou podem simplesmente secar. Desaparecer, no deserto do desprezo ou do esquecimento. Eu... gostaria de continuar te dando minha atenção. Mas não sei se conseguirei, pois pensei que o tempo seria mais meu amigo do que tem sido ultimamente. E agora eu padeço, padeço e padeço. Parece que nós, meio humanos e meio robôs, teimamos em ser ainda assim, reivindicantes da imperfeição dos seres de Deus, pois encontramos nesses sentimentos todos um mistério charmoso que não conseguimos entender. E que, por isso, provavelmente seja bom de uma forma singularmente atraente. E parece também que, realmente, este meu coração... fraco, bizarro, falho, e tecnologicamente modificado... consegue, afinal, ser melhor do que o de muita gente por aí. Não sei até quando baterá. Não sei se conseguirei. Em alguns momentos, aqueles médicos ali no final do corredor virão me examinar. Sei que não estou bem, e vou para o CTI. Vou morrer antes de você. E quando eu morrer, você sentirá. Estaremos quites dentro de algumas horas. Eu já joguei a minha dor fora. E você? Já jogou a tua?

A orquídea permaneceu calada, não podia responder. Plantas não falam.

O Sr. Antônio dirige pela BR-365. No céu escurecido, nuvens bem pesadas e bonitas de uma chuva que parecia querer cair se o vento não espantasse, chuva aquela que fazia falta, muita falta. A sua esposa Maria do lado, na F-1000 deslizando a 150 km/hora, eles levando vários fardos de adubo para a fazenda deles. Eles pensando nos filhos que estavam estudando longe e demandando muitos gastos, e a lavoura que vinha só dando prejuízo, as coisas que tinham danado a não ir mais bem como em outros tempos. O tempo não ajudava, a chuva que teimava em não vir na época certa. Quando, de repente, o susto: os suspiros mais puxados e uma expressão de sofrimento na face de Maria, que subitamente agarra o braço esquerdo de Antônio no volante, passa a aturdi-lo de preocupação.  

O vaso da orquídea.

"Maria! Uai, bem! Ocê num tomou os remédio antes da gente sair não?", e a primeira reação de Antônio, indisfarçadamente, foi querer pegar a mulher e sacudi-la com raiva, que coisa! Ela sabia que não podia ficar sem tomar os comprimidos pro coração, o médico já tinha falado que aquilo era religioso. Tinha que tomar os remédios nos horários certos. Ao que Maria responde: "não, bem... não deu... eu esqueci! Eu esqueci! Ai...", e Antônio começa a apavorar pra valer, vai olhando pros lados, vê se não vai e nem vem ninguém pra fazer um uma meia-volta campeira de retorno à cidade, domando a F-1000 num freio feroz e apressado, com mais firmeza do que peão de rodeio em boi marruá. 

O vaso da orquídea está no criado.

E o que mais dói em Antônio é saber, no fundo, que aquilo que Maria fala nem a verdade é. Porque aquela mulher boa e companheira, muitas vezes, havia mentido que tinha se esquecido de tomar seus remédios, apenas para esconder o fato de que eles haviam acabado, os comprimidos caríssimos para seus problemas cardíacos, aquela arritmia perigosa que há sete anos rondava ela. Ela não era mulher de esquecer as coisas. Ela tomava tudo certinho. E quando acabava, e ela sabia que eles estavam num período apertado pra comprar mais remédios... pronto, ela se esquecia de tomar.

O vaso da orquídea está no criado do quarto.

E Maria começa então a se contorcer mais ainda, a face desfigurando numa carranca de dor lancinante, ela vai suando frio e parece perder a respiração, e Sr. Antônio perde o controle, ela está empalidecendo, amolecendo... ela começa a desfalecer bem ali, do lado dele! Quando ela desmonta e perde a consciência no banco do passageiro, ele subitamente para a caminhonete, já vai a arrancando do cinto, abrindo a porta e tirando ela dali. Vai pro asfalto mesmo, doido. Enlouquecido de tanta angústia e falta de rumo, deita ela ali, no acostamento da estrada, e sacode a mulher, respira boca a boca, pressiona o peito dela massageando... e nada! Ela não vai voltar. "Deus! Deus! Deus! Não... não, não, não, não! (e soluçava copiosamente, com a voz saindo feito urro e tremida de choro, do fundo da goela) Por que, meu Deus? Por que? POR QUE??? Por favor, meu Deus... Não! Não tira a minha Maria de mim! É tudo que eu te peço, meu Deus! Não tira a mulher que eu amo de mim!!!"

E então Deus respondeu, para Sr. Antônio sentado naquela estrada, segurando e apertando em seu colo o corpo já sem vida de sua esposa. Respondeu com a chuva mais torrencial que aquele simples homem do campo jamais havia visto em sua vida. Fosse descendo dos céus, ou descendo em seu rosto judiado.

O vaso da orquídea está no criado do quarto de Antônio e Maria.

Nossa! A menininha pulou do prédio! Ela pulou pela janela! Caiu lá embaixo, se esborrachou?

Quando Suzana saiu correndo desesperada para ver o que havia acontecido, quase gritando de horror por tão inusitado acidente, eis que ela a vê, lá embaixo! A menininha.

Não, tudo bem. Ela estava viva. Do jeito que ela caiu, ela simplesmente apoiou os braços no chão, e saiu andando de ponta cabeça. Ela estava andando com os braços ao invés das pernas. O vestidinho ficou virado, e dava para ver que ela nem usava calcinhas, era uma espécie de saco plástico escuro por baixo do vestido. Parecido com saco de lixo. E ela ficou lá embaixo, do jeito mais estranho, olhando tudo virado de cabeça pra baixo. Ela passaria o resto de sua vida andando daquele jeito, com braços e mãos agindo no lugar de pernas e pés. 

Que triste fim para os seus sapatos bonitos e novos. Dinheiro desperdiçado.

Sr. Antônio está lá ainda, de olho no céu e na lavoura. Será que o milho desse ano vai vingar? Como seria bom conseguir pagar o banco, aquele financiamento come pelas pernas. Ele tenta ligar para um dos filhos em São Paulo. Não atende. Saudade de falar com ele... saudade de ter os meninos por perto. Pequenos. É solitária a vida na fazenda.

E o Dr. Almério continuava lá no estábulo. Rindo com as suas vagas verdades. Jogando pôquer com a paciência animal alheia. Relinchando.

Calma. O silêncio vai te salvar.



domingo, 9 de abril de 2017

SESSÃO NOSTALGIA POP: O SUPERMAN DE CHRISTOPHER REEVE


Paremos só por um momento, a olhar pra trás.

Não gosto muito disso, prefiro fitar o presente e o futuro. Mas de vez em quando, é bom prestarmos atenção em experiências passadas, como uma forma de buscar nelas coisas realmente bonitas e significativas, para seguir bem adiante.

Eis o valor do passado: as lições, e os bons momentos! As emoções capazes de gerar energias positivas...

Sim, sou bem nostálgico de vez em quando, e gosto das energias positivas geradas em mim por aquele que, talvez, tenha sido o maior e mais representativo super-herói do cinema de todos os tempos, pelos valores cristalinos de honra, bondade, justiça, lealdade (e uma certa inocência, até) que ele somente ele soube demonstrar, em sua interpretação de um símbolo da cultura pop contemporânea: estou falando do Superman, de Christopher Reeve

Aquele tido por muitos, afinal, como a representação definitiva do Super-Homem nas telonas! E o mito perdura: ainda hoje, a cada vez que o personagem é reinventado/reinterpretado em novos filmes, mais fica a sensação de que ninguém mesmo foi capaz de superar aquele cara que, já no início da série de 4 filmes em que ele desempenhou, fez todo mundo "acreditar que o homem poderia voar" (o slogan que surgiu nos cartazes de lançamento do primeiro filme, em 1978).

Não adianta ficar esmurrando ponta de faca e ficar tentando se convencer que outros atores que vieram a interpretar o "homem de aço" depois dele conseguiram deixar as suas imagens marcadas como o herói mais do que Chris Reeve, pode enumerar: Dean Cain (do seriado de TV Lois & Clark), Brandon Routh (do desastroso Superman Returns), ou até mesmo o atual Henry Cavill (esforçadinho, coitado), dos filmes recentes que a DC vem enganchando para montar a Liga da Justiça - tem jeito não. Pra muitos (incluindo eu), o Superman definitivo é e continuará sendo sempre Christopher Reeve.

Tenho certeza que não só eu, mas muita gente da minha geração também sentiu os bons efeitos daquele extremo altruísmo e aura magnética que o ator gerou em sua interpretação do personagem: ainda me lembro de uma vez em que eu e quase toda a molecada da nossa sala de 4ª série do Ensino Fundamental demos um jeito de cabular aula só pra assistir uma enésima sessão do primeirão, o Superman, o Filme (ou "Superman 1", como chamávamos na época), que iria passar na Sessão da Tarde, da Rede Globo. Todo mundo adorava aquele filme, não nos cansávamos de rever e comentar algumas cenas, era clássico demais. Os que se seguiram são bons, sobretudo o segundo, Superman 2, que ainda é excelente, e representa bem a mitologia do primeiro filme. Já os dois seguintes... bem, dividem bastante as opiniões, como veremos a seguir. Mas tudo bem, Reeve, valeu a intenção, rsrsrs!

É claro que, sem todo um mega-esquema de produção por trás, Reeve sozinho não daria conta de criar toda essa magia que carrega os seus filmes como o homem de aço, até hoje: da direção hiper-realista de Richard Donner (sua obsessão pela verossimilhança, o primeiro cara a realmente levar a sério a lenda e força do personagem), passando pelos roteiros super bem trabalhados de gente como Mario Puzo e David e Leslie Newman, e a música icônica e apoteótica de John Williams - aquela mesma que, em qualquer lugar onde você ouve, se lembra do cara voando! Vários são os fatores que contribuíram para tornar desse Super-Homem a mais clássica e inesquecível transposição de um herói dos quadrinhos para as películas da sétima arte.

Mas é inegável o esmero e dedicação com que Reeve se entregou ao personagem, o que o tornou, infelizmente, até prisioneiro dele, quase que pelo resto de sua vida - tristemente abreviada por um grave acidente em uma competição equestre, deixando-o tetraplégico e com uma sobrevida cheia de complicações... mas durante a qual ainda foi um mártir, e um autêntico "herói", no sentido mais humanista da palavra, ao dispensar enormes esforços para as pesquisas em torno do uso de células-tronco para sequelados em acidentes.

Reeve nos deixaria em 10 de outubro de 2004.

O que faço aqui então, como forma de homenagem a um ícone que marcou tanto a minha infância, é um apanhado geral dos filmes que formam o legado de Christopher Reeve como o Homem de Aço:

Superman, O Filme (a.k.a. Superman I, 1978) - Aqui se concentra toda a aura clássica em torno da história do herói no cinema, inaugurando uma era de ouro para a transposição de tramas dos quadrinhos para o cinema. Tudo no filme conspira para a perfeição: a música triunfal, os cenários e o clima - tanto nas cenas com estilo glacial em Krypton, planeta natal do personagem, quanto na Terra, na bucólica Smallville e na agitada Metropolis. O roteiro bem amarrado consegue consolidar toda a simbologia do homem de aço, com seus elementos fundamentais: a dupla identidade/personalidade com o desajeitado jornalista Clark Kent, o romance com a intrépida repórter Lois Lane, o embate com o arqui-inimigo Lex Luthor, e também a grande fraqueza que atinge o Super-Homem, a kriptonita. A trajetória do herói é contada do zero, de sua saída da Krypton fadada à destruição, até sua chegada à Terra e descoberta de seus superpoderes, passando ainda pela fase da adolescência, e sua ascensão como ser fantástico nos céus de Metropolis. O cartaz do filme na época de seu lançamento nos cinemas tornou slogan a mítica promessa do diretor Richard Donner: "Você vai acreditar que o homem pode voar". Realmente: em uma época de efeitos especiais que hoje parecem pertencer à pré-história, perto dos shows de computação gráfica que a gente vê toda hora nos filmes atuais, continuam bastante convincentes as cenas de vôo do personagem - diversas técnicas de filmagem foram empregadas, sem o tão costumeiro uso atual de CGI, o que é um grande feito! Reeve conseguiu encarnar muito bem a figura icônica do Super-Homem, em todo o seu carisma, bem como o jeito apalermado e desengonçado da persona Clark Kent, com extremo uso de sutilezas (o andar, o tom de voz nas falas, até o modo de repartir o cabelo). Com a ajuda adicional de um elenco de apoio superestelar (o oscarizado Marlon Brando como o pai biológico Jor-El, Glenn Ford como o pai terráqueo adotivo, Gene Hackman como o mordaz vilão Luthor), o filme se tornou um grande sucesso do cinema, e compensou toda a bolada gasta pela Warner Bros em sua produção (cerca de 55 milhões de dólares), abrindo o filão para as aventuras seguintes. Atenção para as sequências finais em que o Superman tem que salvar a Califórnia de um mega terremoto provocado pelos mísseis nucleares de Lex Luthor - o clímax é de tirar o fôlego!

Marlon Brando, como o pai do herói: preparando o super-bebê para mandá-lo à Terra
 

 Momento histórico no cinema: o primeira aparição, salvando Lois e o helicóptero


Superman II, A Aventura Continua (1981) - Dois anos (e muitos brigas nos bastidores e pré-produção) depois, o homem de aço volta aos cinemas. A história por trás desse segundo filme do herói é notoriamente conturbada: era sabido por todos nos estúdios Warner que estavam sendo rodados dois filmes simultaneamente, ainda na época de Superman I, pelo diretor Richard Donner. Os irmãos Ilya e Alexander Salkind, produtores da saga, no entanto, começaram a ter brigas feias com Donner por conta de desentendimentos acerca do roteiro dos filmes e dos elevados custos da produção, enchendo o saco do diretor até que ele não suportasse mais e decidisse jogar a toalha. Quando isso ocorreu, no entanto, cerca de 70% de Superman 2 já estava finalizado por ele, que tinha contado com todo o aparato de produção e elenco do filme original. Mas como abandonara o projeto, os irmãos Salkind resolveram retirar o nome de Donner dos créditos, e chamar outro diretor para concluir partes da história que ainda não haviam sido rodadas. A escolha recaiu sobre o lendário inglês que havia dirigido os filmes dos Beatles nos anos 60, Richard Lester, e que se tornara chegado dos Salkind em uma outra produção deles, sobre os Três Mosqueteiros. Agora com controle total sobre o filme, e insatisfeito com algumas das partes que Donner havia filmado, Lester decidiu remexer no roteiro, e refazer uma boa quantidade de cenas do filme - assim sendo, se tornaram folclóricas as piadas sobre as cenas com Lois Lane (a atriz Margot Kidder) neste filme: em alguns trechos ela está com o cabelo mais comprido (as rodadas em 1978), e em outros, com um corte de cabelo diferente (cenas de 1981). 

Muito legal: a longa luta contra os 3 super-vilões nas ruas de Metropolis

No computo geral, Lester conseguiu fazer um filme muito bom do homem de aço, mas a sua visão do herói é mais sarcástica e histriônica, com um uso por vezes exagerado do tom de comédia em várias passagens. Aqui, o grande destaque vai para o trio de fugitivos da prisão kriptoniana chamada Zona Fantasma, que ficou vagando no espaço após a destruição de Krypton, e que o Super-Homem acidentalmente liberta em um de seus salvamentos. É claro que eles virão para a Terra e, com os mesmos poderes do super-herói - e a ajuda de Lex Luthor, foragido da cadeia - serão um páreo duro para ele enfrentar. Há ainda uma sub-trama que complica mais as coisas, quando devido ao seu envolvimento afetivo com Lois Lane, o Super-Homem decide renunciar a seus poderes para viver com ela como um simples humano... Outro filmaço que marcou época também. Obs.: Foi lançada em DVD, em 2006, uma reedição do que deveria ter sido o Superman 2 original do diretor Richard Donner, chamada Superman II - Donner's Cut. Apesar de ser uma montagem com algumas cenas de efeitos especiais improvisadas, e outras com aparência de não terminadas, também ficou muito boa, e dá uma ideia do que seria o filme de Donner, com um tom bem mais sério e realista no roteiro, caso ele não tivesse brigado com o os produtores e lançado o filme. Boa diversão! - fica a dica pra quem quiser adquirir ou baixar pelo cine torrent da vida.

 O homem de aço apanha e se corta pela primeira vez: "sangue... meu sangue!"

Superman III (1983) - Aqui a coisa começa a se complicar, apesar de eu lembrar desse filme com muito carinho, fez parte de um momento bem legal da minha infância. Morava em Santos-SP, e havia um clima bacana no ar de filme do Super-Homem sendo lançado junto com o último filme da saga Star Wars - o Retorno de Jedi estava saindo no mesmo ano, então eu e a molecada toda que gostava de heróis ficávamos agitados pra ir no cinema assistir aqueles filmes. Obviamente, com o racional dominando e a lógica do tempo, hoje a gente vê que, na disputa, o filme da série "Guerra nas Estrelas" era bem melhor do que este do Superman, mas... sabe como é, menino é menino. O que atrapalha Superman 3 é que os roteiristas afundaram totalmente o personagem principal em uma trama de comédia! O filme deveria ter o tom mais realista da saga originalmente idealizada por Donner, e com Richard Lester mais uma vez na direção, e totalmente desnorteado pelos mandos e desmandos do produtores picaretas (irmãos Salkind, mais uma vez), o que se viu foi uma verdadeira história "samba-do-crioulo-doido", que mistura esquetes cômicos do humorista Richard Prior (aqui elevado à absurda condição de maleta que se revela gênio da computação), com uma tentativa de uso de uma espécie de kriptonita sintética, que acaba distorcendo a personalidade do Super-Homem, e transformando ele num cara mau. 

 O Superman do bem enforcando o Superman do mal

Aqui sim o filme funciona bem, nos trechos em que ele se divide em dois, e as partes boa e má do herói se enfrentam, num duelo que é uma das brigas mais quebra-pau já vistas no cinema! O elenco original também não se deu bem com as excessivas mudanças no roteiro, e debandaram - a Lois Lane de Margot Kidder participa de cerca de 8 minutos apenas no filme, perdendo a importância como interesse amoroso na vida do homem de aço! O jeito é ele se virar com antiga namoradinha da época de colegial, que reaparece (Lana Lang, vivida pela atriz Annete O'Toole). O embate final, em que Superman enfrenta o mega-computador criado por Prior, também tem alguns bons momentos. E só. Um filme bom, mas que não é inesquecível como os outros. O pior, no entanto, ainda estaria por vir...

 E aqui o Superman do bem vai sendo enforcado pelo super-computador... putz!

Superman IV - Em Busca da Paz (1987) -  E então a coisa despirocou de vez. Conforme reza o subtítulo nacional, o Superman parece que realmente decidiria ficar "em paz" depois desse filme, porque ele é de doer! Me lembro que, já mais rapaz, fui ver o filme em seu laçamento nos cinemas, e saí da sala chateado na época - "como é que puderam fazer isso com meu herói preferido?", essas palavras não saíam da minha mente. O filme ficou fuleiro demais! Pra começar, o orçamento era baixíssimo, visto que os direitos de filmar o personagem não estavam mais com a Warner, haviam sido comprados pelos produtores dos estúdios Canon Group - uns malas israelenses chamados Menahem Golan e Yoram Globus, ainda mais malas que os irmãos Salkind, dos outros filmes! O roteiro original (assinado pelo próprio Chris Reeve, infelizmente em sua derradeira atuação como o herói!) era mais coerente e bem feito do que o de Superman 3, tinha até boas ideias! Mas foi afetado e alterado, devido à falta de dinheiro na produção e (mais uma vez) pitacos dos produtores. Diversas cenas de efeitos especiais ficaram patéticas. O vilão Lex Luthor de Gene Hackman volta para infernizar a vida do Super-Homem, mas a sua reaparição é de dar dó, auxiliado por um sobrinho pirado, provável usuário de drogas e dançarino de break. Outro oponente do Super-Homem no filme, o "Homem Atômico" (criado com material genético do homem de aço mais restolho de mísseis nucleares) é hilário, se parece com uma mistura malfeita de rato de academia com problemas mentais e ator pornô brega dos anos 80. E as intervenções românticas do herói com as personagens de Margot Kidder e Mariel Hemingway (super safadinho, ele se envolve com duas?) não colam, não rola o clima necessário. Enfim, é de se ficar pensando como conseguem detonar tanto assim um filme que, com algumas mudanças criativas, e mais dinheiro, poderia ter ficado muito bom - não era para ser uma comédia, mas involuntariamente, acabou virando. 
Uma melancólica despedida do grande Christopher Reeve no papel de Superman.