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quinta-feira, 15 de junho de 2017

É ISSO O QUE NÓS QUEREMOS?

É um mundo cruel, e nenhum de nós pediu para estar nele e viver desse jeito. 

Mas tudo tem ocorrido de uma maneira tão inabalável e absurda, que continua sendo nosso dever tentar imaginar onde podemos (re)começar, para consertar as coisas que aí estão a nos incomodar.

Ainda pasmo com o que ocorreu semana passada (09/06/2017), com o jovem da foto acima, em São Bernardo do Campo (São Paulo). Foi tentar roubar a bicicleta de um senhorzinho que fica num farol da cidade, deficiente físico (sem uma das pernas). Estava errado, lógico. E então foi impedido por um tatuador e seu vizinho, que estavam próximos do local.

Estavam errados também? Até aí, muito provavelmente, não. 

Mas então, extravasaram.

E o tatuador e seu amigo, mantendo o jovem meliante (um menor, "R.R.") em cárcere privado no prédio onde moram, perpetraram a obra de "arte" que podemos ver na foto acima - e que correu o Brasil inteiro, em vídeo do face e whatsapp. Divulgado por eles. Falando pro rapaz "vai doer, vai doer", e obrigando o mesmo a dizer que tinha gostado da tatuagem, e tal. Sadismo bruto, fazendo escola.

O que fizeram, além do cárcere privado, é caracterizado como tortura, pela legislação penal brasileira. 

Mas por trás dessa simples tipificação jurídica, há muito mais do que os nossos olhos veem. Há um sentimento intrínseco e coletivo, derivado da gritante impunidade tradicional de nossa sociedade e da decadência cívica e moral na qual nossos valores estão afundados, soterrados. Morrendo.

Não se justifica o que fizeram, claro. Violência doida, coisa de louco. Mas obviamente isso vem de algo tristemente muito pulsante no ideário coletivo. Há de se fazer uma análise profunda sobre o que leva cidadãos a agirem repentinamente de maneira tão radical, sem medirem consequências.

Os desvios de verbas doentios, reincidentes e compulsivos da classe política alimentam esse sentimento.

A massiva exposição da mídia acerca de todas essas negociatas, ocultadas e repetidas ao longo de anos, também o alimentam.

E uma indisfarçável atitude de descaso, esnobismo - ou simples indiferença, por não afetar financeiramente o cotidiano deles - de todo um grupo de membros do Poder Judiciário (como o poderosíssimo Sr. Gilmar Mendes, do STF, TSE e quetais), que não se sensibilizam com certos movimentos populares e reações do clamor público, e continuam exarando decisões estapafúrdias e contraditórias, para um real senso de JUSTIÇA, embaladas em um juridiquês empolado e absolutamente feito para confundir, e aturdir.

Mendes arregou na hora H, no momento decisivo de um julgamento do TSE que iria expulsar da cadeira chefe do nosso Poder Executivo um sujeito que já perdeu todas as condições políticas e éticas, de idoneidade e envergadura moral, para governar - um "fantoche das circunstâncias", que mal consegue balbuciar algo convincente diante de 82 perguntas cruciais encaminhadas a ele pela Polícia Federal! Um cara mancomunado com o notório gangster e facínora do Legislativo, Eduardo Cunha - que se trancafiado continua, pelo seu notório currículo de transgressões no Rio e Distrito Federal, não é à toa...

Situações como essa revoltam, detonam a moral do brasileiro padrão.

Não é possível que alguém, em sã consciência, duvide que uma hora esse caldeirão todo de ódio e revolta, por conta da impunidade e da perda de autoridade das instituições que deveriam zelar pela JUSTIÇA, vá derramar. Caudalosamente.

É o nefasto senso de passividade de tais instituições que provoca o senso de agressividade e insatisfação do cidadão comum.

Senhores e senhoras, tremei. A tatuagem na testa do moço é só o começo.

sábado, 10 de junho de 2017

POR DENTRO DOS DRAMAS DE UM MITO

Para quem é cinéfilo, como eu, está em cartaz, na Netflix (não sei por quanto tempo - aproveite!), um documentário belíssimo sobre a vida e a carreira daquele que, em diversas votações, é ainda considerado o maior ator da história da sétima arte até hoje: Marlon Brando, falecido em 2004, aos 80 anos.

"A Verdade Sobre Marlon Brando" (Listen to Me Marlon, 2015) é a mais perfeita transposição, em imagem e áudio, da história repleta de altos e baixos (e já contada em diversas biografias escritas) de uma verdadeira lenda da atuação. 


O diretor Stevan Riley não poderia ter utilizado artifício melhor para traçar um painel complexo, delicado, e extremamente detalhista dos dramas vividos pelo astro: ele e sua equipe simplesmente tiveram acesso a um até então oculto e desconhecido acervo de fitas cassete antigas que o mesmo gravava em casa, em forma de desabafo, sobre vários momentos seus, como uma espécie de diário pessoal. Temos Brando com sua própria e marcante voz, simplesmente contando e explicando grande parte de sua trajetória: seus medos, felicidades, angústias, traumas, desejos e decepções. E que decepções.

Ele chega, inclusive, a "profetizar" -  em determinado momento, prevê sobre a possibilidade dos atores no futuro (mesmo mortos) serem representados através de imagens digitalizadas de computador (algo que foi feito com ele mesmo, em Superman Returns, e mais recentemente, Carrie Fisher, no filme da série Star Wars - Rogue One). O documentário chega a fazer o interessante uso de uma imagem holograficamente criada do rosto do ator, em alguns momentos.

Junto a isso, o diretor aliou extenso e rico material de filmes clássicos, entrevistas, e vídeos caseiros também filmados pelo próprio ator, bem como por amigos. Talvez seja este, até o momento, o melhor e mais cativante registro biográfico realizado em filme sobre Brando.

O documentário vai fundo nas reminiscências do ator, o retratando como uma vítima das circunstâncias - mas que, ao mesmo tempo, as utilizou para construir e solidificar um talento incomparável na arte de atuar. Estava na vivência de uma infância e juventude sofridas, de irreverência e amores não correspondidos ou mal compreendidos, a matéria prima que Brando usaria na psique de diversas personagens construídas, ao longo dos anos. Em diversos momentos, por exemplo, Brando explica que "atuar é viver. Atuamos desde os primeiros momentos de nossas vidas, na infância, quando choramos por alguma coisa que queremos". 


Os arroubos de ira e rebeldia do ator, em diversos papéis que desempenhou, teriam origem na tempestuosa relação dele com os seus próprios pais, filho único que era de uma família complicada: edipiano, Brando tinha uma relação intensa de amor/frustração com a mãe, notória alcoólatra da pequena cidade de Omaha, onde nasceu. Foi graças a ela que desenvolveu a paixão pelas artes. E pelo pai, nutria ódio, medo e distanciamento, devido ao fato de ser um homem explosivo e violento, que chegava a espancar a mãe do ator na frente dele.


Ainda jovem e errante, sem conseguir um direcionamento profissional, resolveu partir de mala e cuia para New York em busca de um lugar ao sol, onde literalmente chegou a dormir nas ruas! Não conseguia se firmar em nada que não fosse nas artes dramáticas. Pois acabou aportando na escola de interpretação da lendária professora de teatro Stella Adler.

Stella Adler: presença decisiva na carreira de Brando

Do intrincado universo de carências afetivas do ator, Stella tirou máximo proveito, para moldar aquele que seria um mito da representação no século 20 - "Ela dizia: se você tiver 100% de problemas pessoais, expresse 80% no palco... Nunca tenha medo!". As revolucionárias técnicas de atuação de Stella encontrariam em Marlon Brando o seu ícone ideal - usar as experiências pessoais, as dores, taras e decepções, como combustível insubstituível para construir a personagem, enriquecer nuanças e sutilezas, sempre buscando a forma de atuar mais real possível.

Gravaria a ferro e fogo na história do cinema o seu nome em papéis fortes e expressivos, que exigiam técnicas dramáticas de poderoso alcance e busca das emoções interiores: um apaixonado paraplégico veterano de guerra, em "Espíritos Indômitos" (1951), o rude e insano Stanley Kowalski, de "Um Bonde Chamado Desejo" (1952), um motoqueiro psicótico em "O Selvagem" (1955), e o papel que lhe daria o primeiro Oscar de sua carreira, como o estivador e ex-boxer frustrado, de "Sindicato de Ladrões" (1954). 

Brando, com seus trejeitos inesquecíveis, olhar ameaçador, voz anasalada e meio resmungada, tinha o dom magnânimo de dar vida perfeita aos esquecidos, os marginais, rejeitados e revoltados da sociedade, nas telas prateadas dos cinemas.

Para Brando, o público tinha que acreditar na personagem, em sua sinceridade, acima de tudo. "Em A Condessa de Hong Kong (filme de 1966) eu estava horrível... pois simplesmente não acreditava naquele papel, no que estava fazendo!".

Outro lado de Brando pungente no documentário é o seu crescente envolvimento com causas políticas e sociais durante a década de 60 - justamente o momento em que sua carreira entrou em grande declínio, e ele adquiriu, mais do que nunca, a fama de artista encrenqueiro e preguiçoso, criando caso com diversos diretores, roteiristas e estúdios. Esse tino para o inconformismo, segundo ele, vinha do serviço militar, que seu pai o obrigou a prestar ainda bem jovem, e que criou nele um profundo desprezo pelas autoridades e hierarquias. O filme mostra que ele brigou com a equipe e atrasou as filmagens de um dos seus maiores sucessos, "O Grande Motim" (1965). Brando teimava em querer reescrever o roteiro, ampliando a revolta existencial de sua personagem no filme, Christian.
Nascia o Brando contracultural, contestador, capaz de caminhar com Martin Luther King em marchas pelos direitos civis dos negros e dos miseráveis. Que criticaria e lutaria contra o preconceito e a discriminação dos descendentes das populações indígenas nos EUA, marginalizadas no cinema western - comportamento que causaria a sua atitude de recusar um Oscar da Academia em 1972, quando ganhou a sua segunda estatueta de melhor ator pelo desempenho em "O Poderoso Chefão".

Em um autêntico processo de amadurecimento artístico, Brando subverte a sua imagem viril de galã rebelde e jovial a partir dos anos 70.  Buscando recuperar parte do prestígio perdido na década anterior, com sua participação em produções mais autênticas e independentes, fora do padrão habitual de Hollywood, e atuando em papéis diferentes de tudo o que já havia feito, Brando simplesmente arrasa na virada 1971-1972, com duas performances sintomáticas, talvez as mais marcantes de sua carreira: o Don Vito Corleone, papa de uma família mafiosa na mega produção inspirada no romance de Mario Puzo, O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, e o amargurado, depressivo e eroticamente maníaco Paul, um viúvo em crise existencial da meia-idade, no clássico O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci.

São interpretações ímpares, que tiravam o ator de sua zona de conforto, e o levaram a se arriscar, cada vez mais, fosse como uma persona totalmente induzida e criada pelo talento do ator (o capo siciliano Corleone), fosse como ele mesmo nu, totalmente despido física e psicologicamente (o atormentado Paul), com o qual Bertolucci, em "O Último Tango...", conseguiu a proeza de extrair de Brando experiências pessoais e confessionais próprias, de sua vida, na construção da personagem. Em certos momentos, víamos que Paul era o próprio Brando.


Dois momentos antológicos desses filmes entraram para a história do cinema: em "Chefão", a cena da negociação de Corleone com um de seus "protegidos", dizendo com sua soturna voz ameaçadora: "Vou fazer uma proposta que ele não vai recusar", e em "Último Tango", a polêmica cena de sexo anal com manteiga, entre ele e a personagem de Maria Schneider, com quem se envolve numa relação tensa e desesperadora, de fuga da realidade.

Com esses dois personagens (mais o enlouquecido e selvagem Coronel Kurtz, do filme de guerra Apocalypse Now, de 1979), Brando romperia totalmente com a imagem robusta e galante de outrora, passando a encarnar, com o peso da idade, todos os traumas e paradigmas do americano envelhecido e decadente, à beira do abismo.

E foi um peso ao qual ele, tristemente, foi cedendo na área pessoal. 
 
Um Brando diferente em "Apocalypse Now": o careca, obeso e decadente Coronel Kurtz


Fisicamente até: envelheceu muito mal, ficou calvo, e vítima de uma obesidade mórbida contra a qual lutou inutilmente até seus últimos dias de vida. Foi assombrado por memórias e traumas do passado, e pelo pungente drama familiar que se abateu sobre ele em 1991, quando seu filho mais velho, Christian Brando, atirou no namorado de sua meia-irmã, Cheyenne Brando, matando-o. Christian já havia dado muito trabalho a Brando desde os anos 70, era dependente químico e fruto do primeiro e muito mal resolvido casamento do ator com a temperamental atriz Anna Kashfi, uma pedra no sapato da vida de Brando. 

Depois desse incidente, Brando se recluiu ainda mais em sua mansão, e foi aos poucos perdendo o interesse por viver. A situação se agravou com o suicídio da filha Cheyenne, que nunca conseguira superar o episódio, em 1995.

 Brando em 3 momentos distintos: o pugilista Terry, papel que lhe rendeu o Oscar em "Sindicato de Ladrões" (1955), o general alemão de "Os Deuses Vencidos" (1957), e como o pai do Super-Homem, em "Superman, o Filme" (1978)

O documentário mostra bem que os últimos dias de Brando são a jornada intimista e angustiada de um homem em busca de redenção com os seus fantasmas pessoais, meditando em busca de um sentido para tudo que ocorrera com ele. 

E surpreendentemente chegando a conclusões bem lógicas e realistas para todos os percalços de sua conturbada vida.

terça-feira, 6 de junho de 2017

MUITO DOIDO... FIDGET SPINNER, A ONDA DO MOMENTO!!!


Hahaha, agora eu vi mesmo! A molecada não para de inventar, e um treco chamado fidget spinner é a nova onda do momento! 

Depois de assolar os EUA e Inglaterra, onde a garotada entre 7 e 18 anos elevou o pequeno brinquedo à condição de “iô iô” moderno (lembra dele?), a sensação desembarcou com tudo nos últimos dias na América Latina, e já está dominando o Brasil de ponta a ponta.

Ele nada mais é do que uma “estrela” – a quantidade de pontas, ou hélices, varia, de três a duas, dependendo de alguns modelos – disposta sobre uma base fixa, que é o eixo central de onde o usuário promove a rotação das pontas. Alguns são super caprichados, multicoloridos ou metálicos, e com efeitos de luz (led).

Mas de onde vem?

Ao que tudo, foi criado na década de 90 por uma engenheira inglesa, que queria desenvolver algo para trabalhar a atenção do seu filho autista. Apesar das prováveis indicações “terapêuticas” do passatempo, no entanto, logo ele evoluiu para outros tipos de uso - como diversão e até mesmo competição - estimulados pelas redes sociais americanas e britânicas (eita internet dos capeta!), e passou a ter seu uso vinculado também a um pressuposto hábito para tirar o stress de empresários e publicitários, sempre às voltas com as pressões de um dia a dia atrás das mesas de negócio.

No Reino Unido, onde nasceu e prosperou a novidade, o seu uso passou a ser tão constante e exagerado por crianças e adolescentes, que já há dois meses passou a ser proibido na maioria das escolas por lá.

Tudo ainda é muito recente, mas entre os profissionais da área de saúde, as opiniões se dividem: enquanto alguns psicólogos afirmam que, por possuir qualidades de estimulação sensorial tátil, sonora e visual (as cores, a luz promovida pelo giro, bem como um leve zunido), o brinquedo pode realmente estimular e acalmar os autistas, outros, na área da neuropsiquiatria, acham que nada a ver, é tudo engodo e conversa de comerciante pra vender mais.

E tá vendendo mesmo. Pra caramba! A coisa tá escorrendo feito água, e o dono de uma loja de variedades onde estive mais cedo afirmou: “olha, é melhor a molecada mexendo nisso aí, brincando de girar, do que ficar o dia inteiro presa na tela de um celular ou videogame”.

Tem razão? Talvez. Pelo fato de ser um brinquedo mais sinestésico, e que estimula uma boa dose de motricidade, pode realmente soar como um substituto interessante para velhas brincadeiras de antigamente, como a piorra ou peão (com o qual acaba se parecendo muuuito), ou mesmo as ancestrais bolas de gude (na minha época, vulgarmente chamadas de “bilocas”).
Iô iô (bem como os peões, bolas de gude...) - febres da garotada que antecederam o spinner

O que não pode é atrapalhar a moçada na atenção com outras coisas importantes, como os estudos, ou virar obsessão maníaca a ponto da gurizada deixar de viver. Tudo em excesso é veneno.

Mas, pessoalmente, acho que qualquer coisa que não leve crianças a morrer por aí caçando bichinhos virtuais onde o celular indica – seja num brejo ou no topo de um edifício – é algo melhor. E é relativamente barato! Alguns são mais simples, em torno de R$ 13, R$ 15... mas à medida que a coisa vai se sofisticando e o brinquedo fica mais emperiquitado, a coisa sobe lá pros R$ 45, R$ 50...

Alguns ditos “semi-profissionais”, usados em "torneios" por aí, já beiram a casa dos R$ 70.

Sim, já existem campeonatos de spinner. Com acrobacias, manhas pra passar com os dedos e as mãos, e altos malabarismos.

Quer ver? Sente só nos vídeos a molecada se esbaldando.