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quinta-feira, 17 de agosto de 2017

'FAÇA AMOR, NÃO FAÇA GUERRA' - ou VIVE LE FRANCE (VIVE LUC BESSON)!

Muita gente começou essa semana falando sobre Donald Trump, e o míssil que a Coreia do Norte, doida por uma confusão, quer lançar na ilha americana de Guam, no Pacífico. 

Muita gente começou a semana falando, novamente, nas trapalhadas e falsidades do governo que aí está, dando uma de bonzinho pra detonar todo mundo nos juros e impostos. 

Mas eu, sinceramente, não estou nem aí com Trump, Temer, ou qualquer desses palhaços que se acham os donos do mundo. Que se lasquem. 

Prefiro, muito mais, falar sobre um filme que fui ver, atendendo a um chamado da minha filha, e que foi uma grata e prazerosa surpresa para mim! - Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, do grande cineasta francês Luc Besson.

Besson é um iconoclasta, pra começo de conversa. Derruba mitos, despreza convenções. Faz piada com o sério, o chato e o careta. Todos os seus filmes mostram punhados dessa marcante irreverência.

E cinema francês tem cheiro forte de Besson, e de outros caras mais: mostra personalismo. É poesia, é sentimento, é mais um clima intenso do que definição, do que momento. Caras como Louis Malle, François Truffaut, e o polêmico e inesquecível Jean-Luc Godard não me deixam mentir. 

É cinema muito mais pra pensar do que se ver, realmente. 

Não que as imagens não valham a pena, muito pelo contrário. Uma grande parte dos filmes franceses são de uma plasticidade incrível, eles tem diretores de fotografia que fazem um excelente trabalho - e a considerar pelo devaneio visual desse Valerian de Besson, então... 

Mas as tramas e o modo como são desenvolvidas é que tem um charme especial. As mensagens embutidas.

Enfeitiçando de ironia a rivalidade histórica entre americanos e franceses, podemos dizer que o pessoal do hino Marselhesa são os maiores fãs do cinema ianque há muito tempo. E eles se especializaram num capricho muito peculiar: pegar tramas clássicas do cinema dos EUA, com seus costumes, padrões e tradições, e subvertê-las à maneira de contar histórias europeia. O jeito francês de ser.

Tem sido assim desde sempre. Godard e aquela que é considerada uma de suas obras-primas, o filme Acossado (À Bout De Soffle, de 1961), com Jean Paulo Belmondo e Jean Seberg, é um dos mais notáveis exemplos: um roteiro clássico de filme policial, com assassinato, fugas e perseguições, que converte a sua narrativa no ritmo instigante e reflexivo de um novo estilo, para analisar a psique de suas personagens, iniciando ali um gênero cinematográfico: a nouvelle vague.

Assim como outros mestres franceses, Besson também faz isso: vai a fundo dentro da mente de suas figuras, saboreia suas personas e motivações. E amarra tudo com o clima e os dilemas da época em que vivem.

Isso também rola em Valerian. O que explica algumas coisas que aconteceram em relação às críticas que andaram saindo sobre o filme.

Pra começar, é bem bacana uma história que começa ao som da lindíssima "Space Oddity", pérola gravada por David Bowie em 1969, enfeitando imponentes imagens da corrida espacial que se desenvolve a partir dos anos 2000 e pouco, para chegar lá na frente, em 2000 e tanto, futurão.

Besson nos guia em um painel histórico extraordinário dos acontecimentos, dando um salto no tempo sem uma palavra dita sequer, apenas através de cenas mostrando a crescente e ininterrupta evolução da humanidade no desbravamento da galáxia, com a criação de estações espaciais e o contato com alienígenas.

E a seguir, logo tomamos contato com as missões especiais (e espaciais) dos agentes federais do futuro Valerian (Dane De Haan) e Laureline (Cara Delevingne), encarregados de vigiar o "artefato" da civilização de um planeta extinto - bem como um último espécime do mesmo, que tem um importante elo com a sua misteriosa destruição.


Subitamente, somos atirados numa perseguição arrebatadora entre duas realidades ultradimensionais, às quais as personagens tem acesso com o uso de óculos virtuais. Que sacada!

A trama se desenrola de forma ágil e segura, sem grandes complicações, e já nas primeiras sequências de ação - num planeta de ambientação árida, que lembra muito Tattooine, do Luke Skywalker de Guerra nas Estrelas - sentimos que o filme inova e manda muito bem nos excelentes efeitos especiais, que fizeram o orçamento explodir e se tornar o mais caro filme já realizado no cinema europeu até hoje! (Nada menos que três empresas de efeitos especiais digitais foram contratadas para trabalhar nas cenas do filme)

Valerian, aliás, é predecessor em muitos anos da galerinha de Star Wars. Baseada numa famosa HQ francesa dos anos 60, a trama teria inspirado George Lucas a criar a sua saga de cavaleiros espaciais, diversos são os sites que tem demonstrado o que agora parece se revelar como um descarado plágio (ver aqui).

Todas as interações entre os diversos espaços dimensionais em que a história se desenvolve são muito bem boladas, e diante de um certo ranço que a imprensa internacional (especialmente a norte-americana) vem demonstrando pelo filme - que pra mim soou super bem-feito, envolvente, e em momento algum pedante ou mal estruturado, como dizem - logo chegamos à seguinte indagação: por que? 

Obras muito piores do que essa já foram extremamente bem recebidas lá fora. A primeira semana de arrecadação nos EUA foi uma decepção, e o filme espera agora faturar mais nos mercados latino-americano e asiático, além do europeu, claro.

Mas não é preciso ir muito longe na meia hora final do filme para entender o porque disso: Valerian passa mensagens poderosíssimas e fortemente anti-Trump, perante o atual direcionamento do governo ianque e a forma como a humanidade tem cedido a tendências opressoras e anti-humanistas. 

Pra começar, há o tom ecológico: a raça que é dizimada no início do filme - e sobre a qual paira um terrível segredo, ninguém quer falar - é intelectualmente sofisticada e prezava a auto subsistência e sustentabilidade de todos os seus recursos naturais, em perfeita paz e harmonia com a fauna e a flora. O altruísmo que se desvela no tratamento a essas personagens é pungente, e mostra uma crítica quase velada de Besson às últimas evasivas de Tio Sam nos tratados e acordos mundiais pela despoluição.

E há o forte apelo contra as guerras e genocídios, o militarismo exacerbado, e a obediência cega e burra a ordens sob qualquer custo - nítido no tocante último diálogo entre Valerian e sua parceira Laureline (par romântico com uma química muito interessante) antes do conflito final, onde soa originalíssimo o mote resquício dos sonhos libertários de gerações de cineastas franceses e outros que tanto reviraram cabeças na utopia louca dos anos 60, no mundo inteiro - "faça amor, não faça guerra".

Me lembrei um pouco também de John Lennon, sempre aquela boa e velha mensagem: give peace a chance ("dê uma chance à paz").

Não vou revelar mais coisas aqui para não estragar a surpresa de quem topar assistir o filme - que afinal, é muito legal sim, uma tremenda diversão em longos 135 minutos que passam voando, nem dá para se entediar. Besson parece ter chegado a um state-of-art no seu intuito de criar o épico espacial que ele pretendia quando fez O Quinto Elemento, em 1997. Sou da opinião que aquele filme não concatenava bem todas as ideias que tinha, tropeçava em certos exageros, e não conseguia trabalhar da forma enxuta e incisiva como esse Valerian conseguiu.

O cineasta já comentou em uma entrevista a repercussão não tão boa dessa sua última realização, mas parece que ele já sabia que ia acontecer, por todos esses elementos que comentamos aqui - e que constituem uma afronta ao conservadorismo norte-americano tacanho, ainda mais acirrado após os últimos confrontos da extrema direita neonazista e reaça por lá.

Disse, por outro lado, que não está esquentando com isso: Valerian ainda vai acabar virando um daqueles filmes cult, objeto de adoração de grupos especiais de fãs, daqui a alguns anos, ganhando notoriedade e entendimento com o tempo, da mesma forma que aconteceu com o Quinto Elemento. Ou seja, vai envelhecer bem como vinho. Grande Besson!

Portanto, se você quiser fazer um favor legal a si, cair fora da mesmice que anda sendo esses blockbusters, filmes engraçadinhos, de piada pronta e heróis, que andam infestando os cinemas nos últimos tempos, e experimentar uma coisa diferente, com aventura, efeitos visuais mirabolantes, e algo mais para sentir e pensar quando levantar a popa da cadeira do cinema, vá em frente: Valerian está te esperando pra viajar pelo cosmos com ele, na sala de exibição mais próxima.

P.S.: Atenção para o que a Rihanna, em participação especialíssima, faz no filme. É de cair o queixo...

domingo, 13 de agosto de 2017

SÍLVIA CAMPOS NÃO MORA MAIS AQUI
Um conto de Denio Alves

Em um futuro próximo, num lugar não muito distante...


Sílvia já está completamente nua, sobre a cama, quando Danilo se aproxima - sorriso safado na face - e já se livrando de sua última peça de roupa, sobe no leito engatinhando e se deitando desavergonhadamente sobre ela. A agarrando, beijando e cheirando muito, aquela mulher despudoradamente linda.

- Ai, bobo. Pára! - ela ri, enquanto ele nem liga e vai beijando ela na boca.

Beijos barulhentos. Estalados. Cheios de vontade e fome. 

- Quantas vezes eu vou ter que te dizer que amo você? Hein? Que não quero nunca mais ficar sem você. - sussurra ele nos ouvidos dela. Os dois.

Ela o abraça. Enfim, se apertam. Se beijam apaixonadamente, dois corpos nus. Homem e mulher, um do outro. Loucos de desejo. Loucos para se unirem do jeito que o amor sempre teve que ser.

- Já tá sentindo algo arranhar você, meu bem? Tá? - diz ele, tentando conter o riso de homem lerdo.

- Nossa! - responde ela, já rindo - Onde é que você arrumou essa vareta, hein? Tão dura! Seu custoso!

Ele fica doido, e a beija mais forte ainda. Tara de morder aqueles lábios gostosos dela toda hora, o batom rubro que ela costuma passar deixa ele cada vez mais insano por ela, hum... se pudesse, agarrava e beijava essa mulher cada vez que ela sorrisse pra ele, pegando animal nos cabelos dela com uma mão, e com a outra agarrando ela pela cintura, prendendo ela nas ancas contra ele, do jeito que ela merece.

Não demora até que, após bolinar severamente os seios tesos de Sílvia, ele comece a explorá-los intensamente com a boca, brincando demoradamente em seus bicos maravilhosos...
E ela sabe fazer dum jeito bem manhoso, que ele curte. Sabe atiçar. Enquanto passa as mãos na bunda dele, governando e o aproximando para aquele mastro intumescido adentrar com tudo sua flor úmida, cheirosa, repleta de latência para satisfazer o furor uterino, ao mesmo tempo em que beija e chupa sua língua, ela avança seus pés formosos e macios nas pernas dele, acariciando os pelos grossos que as adornam. Faz o homem ficar cada vez mais bicho. Cada vez mais possessor. Selvagem. Predador.

- Ai, amor... Esses seus pezinhos deliciosos na minha perna. Eu vou beijar eles todinhos, tá? Vou beijar tuas pernas. Tuas coxas. Tua bunda gostosa. Vou meter a língua em você todinha. Você é toda minha. Tá? Todinha...

- Você quer? Quer? Ai, safado... Então vem. Vem me fazer. Vem me arrombar todinha...

E num só movimento ousado, Danilo se desgruda dela, e se joga sentado sobre ela, sobre seus peitos. De um modo que... seu órgão se aproxime da boca dela, e ela deitada, ele por cima dela, logo começa a lhe proporcionar um prazer maravilhoso, ele entrando e saindo entre seus lábios majestosos.

- Hum... Hummm... Ai, Sílvia. Ai... Assim eu não aguento. Deixa eu tirar, vai. Senão... Nossa, que boca! Uma hora cê ainda me mata de prazer desse jeito.

E novamente ele se deita sobre ela, estilo papai-e-mamãe, posiciona bem a estaca naquele alojamento molhado e sedento de amor, e começa a golpear compassadamente, sem pressa, com cadência de paixão eterna, controlada, voltando a beijá-la nos lábios que tão feliz o fizeram, e agarrando as duas mãos dela, lindas e macias. 

Mãos que ele gostaria de segurar para o resto da vida.

- Ai, Danilo! Ai... Hum... Aiiiiii... Ai, que amor. Que metida gostosa! Mete, mete. Muito... Vai.

E ele a beijava. E a cheirava. E novamente a língua brincava naqueles seios de deusa...

- Deusa. Amor. Deusa. Você é minha deusa!

Não contente de estar naquela posição, por cima dela, Danilo para antes de jorrar caudalosamente, e com vontade de ter uma visão magnífica do paraíso feminino, sai de cima dela, manda ela se virar e ficar de quatro.

- Agora eu vou montar em você, amor. Vamos fazer "cachorrinho". Vai. Eu te amo.

Ela se vira. Aquela bunda divina e toda arrebitada, aberta pra ele, tesão! Ele encaixa. E vai entrando com tudo. Ele enterra, e tira. Enterra, e tira. Enterra, e tira. Sem parar. Ela fica louca. Rebola. Geme manhosa e quase chora de volúpia. 

- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiii... Aiiiii, gostoso!!! Me come toda! Come! Eu te quero! Te quero! Fode!!!

E naquele vai-e-vem incessante, brutal, ele a dominando totalmente por trás e bolinando os seios dela enquanto trabalha, acabam gozando intensamente, feito duas feras animalescas de tanto cio, atingindo um orgasmo desvairado, libertário, sem reservas e nem medo de ser feliz.

Orgasmo de quem quer repetir, mais e mais. Cada vez mais. Com beijo na boca, mão agarrada uma na outra, e pernas entrelaçadas, se roçando numa doença doida de paixão.

Após a entrega, o descanso.

Sílvia se deita sobre o peito de Danilo. Acaricia seus pelos fartos, dá um leve beijo sobre eles. Enquanto ela se agarra a ele e se acomoda, ele a aperta um pouco mais, cheira os cabelos dela que ele tanto adora cheirar, e diz:

- Você sabia que a gente vai viver pra sempre um com o outro, depois de todo esse amor que a gente fez? Eu vivo dentro de você e você vive dentro de mim.

Ela vira o rosto dela para o dele, olha bem fundo em seus olhos, e diz:

- Lindo. Você não se cansa de ser tão lindo? Tão carinhoso?

Ele dá um sorriso maroto. Como quem tenta disfarçar. E fala para Sílvia:

- Sílvia, esse momento é só nosso. E o amor que sentimos nunca vai se apagar da minha mente.

Eis que o celular dele começa a tocar.

Está em cima da mesinha do quarto, ele levanta rapidamente e vai ver quem é. 

Quando ele olha e vê, só há mero tempo de dizer: "ah não...", e...

Escurece tudo! Escureceu. Acabou!

Cadê? Cadê tudo???

***

O teleneurotrônico cessou a transmissão de imagens. A história de amor acabara. O monitor se apagou, e nada mais sobrara na geração de som a não ser aquele baixo e intermitente zunido metálico, indicando que a experiência de "sonho" havia terminado.

- Não, Cláudio! Não!!! Volta, volta ele! Eu já estava conseguindo ver as reações! Os dedos da mão direita dele estavam se mexendo! Eu juro!!! - dizia Bianca quase aos gritos, começando a chorar desesperada, enquanto seu namorado, médico neuro-especialista, digitava freneticamente no terminal da sala ao lado.

- Sem chance, amor. Não dá. Não consigo fazer mais nada agora. Perdemos novamente o sinal do seu pai... Sinto muito.

***

Praticamente três anos de trabalho árduo, e o progresso ainda se mostrava tímido. 

Danilo era um homem de 58 anos de idade, destruído em cima de uma cama de hospital.

Tetraplégico, pois sua coluna havia sido danificada em cinco partes, esmagada que fora em um terrível acidente de automóvel, ele respirava com a ajuda de aparelhos, e vinha sendo mantido em uma nova e especial forma de coma, num dos maiores centros neurológicos da América Latina, como resultado de seu ingresso em um programa experimental de recuperação de sequelados, que envolve o uso de experiências neurológicas e psíquicas profundas, como forma de estimular a auto-regeneração celular. 

Nesse novo tratamento em fase de testes, via indução de drogas poderosíssimas e microscópicas intervenções eletromagnéticas no córtex - de modo a estimular e reavivar emoções "positivas" no cérebro - o controle e monitoramento dos resultados terapêuticos se dá através da eletro vídeogênese cortical, uma técnica de geração de imagens e áudio do que se passa na mente do paciente, quando as ondas cerebrais atingem uma frequência de atividade extremamente benéfica ao corpo humano, no limiar dos 2.8 Hertz, operando em ondas delta - numa média padrão a partir da qual a mente, superestimulada e induzida, em ambiente de laboratório, pode passar a trabalhar de uma maneira não convencional, no trabalho de regeneração de danos no próprio organismo. 

É nesse estágio, também, que as experiências vivenciadas no cérebro superestimulado refletem emoções de grande felicidade e sentimento de realização no inconsciente do paciente, de situações extremamente desejadas e benéficas em sua vida pregressa, e estas sensações podem ser captadas e transmitidas em forma de "sonho", através de um aparelho denominado teleneurotrônico, criado e desenvolvido justamente para registrar a eletro vídeogênese cortical.

O paciente é então mantido em coma e monitorado por semanas, ou meses a fio, para que sua atividade cerebral atinja níveis intensos e inéditos de poder auto-regenerativo, e trabalhe de forma exclusiva e dedicada a esse propósito, sem quaisquer outras ações dispersivas.

E assim Danilo seguia em seu já longo e ainda pouco frutífero tratamento, sob supervisão de sua própria filha, a ainda estudante de psiquiatria Bianca, acompanhada do namorado, um jovem e recém-formado neurologista chamado Cláudio.

No refeitório do hospital, ela se aproxima de Cláudio segurando uma xícara de chá. Ele terminara de lanchar há poucos minutos, depois da última sessão de vídeogênese do sogro, e está observando alguns dos relatórios gerados pelo teleneurotrônico, dispostos sobre a mesa. Bianca se aproxima, com a mão que não está segurando a xícara afaga rapidamente o cabelo da nuca de Cláudio, que vai lentamente levantando o olhar cansado enquanto ela começa a falar:

- Acho que deveríamos tentar aquela técnica que você mencionou um dia... daquele médico austríaco. É um experimento meio exótico, eu sei. Mas pode funcionar.

- Mesmo? Não imaginei que estivesse levando a sério da primeira vez que comentei com você. É uma intervenção um tanto quanto excêntrica, não? - respondeu Cláudio - O quanto de misticismo disfarçado de ciência não pode haver naquilo?

Bianca olha para baixo, puxa uma cadeira e se senta perto, a xícara pousando desanimadamente na mesa, sua voz quase suspirando.

- Ah, não sei. Só sei que os resultados são muito lentos, Cláudio. Estamos muito longe do esperado. Eu fico ansiosa. Não tenho paciência. Sei que temos que confiar em dados, temos que buscar evolução através dos resultados. Mas os resultados não tem mostrado quase nada, Cláudio! É muito pouco pra mim. Eu quero mais! Eu quero meu pai de volta!

- Calma... calma, amor. Foi um dia difícil. Essa última sessão foi muito cansativa. Acho que não dosamos direito o psico...

Bianca interrompe bruscamente Cláudio com uma voz engasgada, nervosa, quase sussurrando de tensão reprimida. Balança negativamente a cabeça enquanto enquanto suas mãos também dizem não no ar.

- Não, Cláudio! Não! Não fizemos nada de errado, anda tudo certo. Fizemos e refizemos as análises já umas trocentas vezes, e é só isso que acontece! Já faz mais de oito meses que só o que vejo é meu pai todo arrebentado naquela cama, amando perdidamente uma mulher do passado na cabeça dele, e nada acontece, nada!!! Ele não progride, a cada final de sessão é cada mexidinha dele que já sumiu e não volta, e estamos vagando em círculos, voltando sempre pro mesmo lugar. Isso é angustiante! NÓS PRECISAMOS ACELERAR O PROCESSO! PRECISAMOS TRAZER A SÍLVIA AQUI!


***

Sílvia Campos Gomes da Fonseca era uma analista de sistemas, uma antiga colega da empresa onde Danilo trabalhara durante uns bons anos de sua vida, mais jovem. Ela era uma pessoa amável e cordial, de longos cabelos negros e sorriso cativante, que fazia amizades facilmente, e logo encontrou em Danilo um parceiro ideal e eficiente no desenvolvimento de projetos pelos quais eles eram responsáveis. Ele - mais sério, tímido, metódico e compenetrado - complementava bem o que ela precisava nos projetos. E ela, sociável e vibrante, apresentava o que eles faziam com sucesso e disposição. Ele tinha paciência para ouvir todos os pedidos e reclamações dela. Ela gostava de ouvir as piadas sem graça e histórias desajeitadas de família que ele tinha coragem de contar, somente pra ela. Ele ria da risada dela, amava vê-la feliz. Ela contemplava o jeito dele raciocinar, e ponderar sobre as coisas. Ela desabafava com ele. Ele a ouvia. Ele contava coisas sigilosas pra ela. Ela o escutava com atenção e ele confiava no olhar dela. Era uma bela amizade, os dois pareciam ler os pensamentos um do outro. Logo, a amizade estava se tornando outra coisa.

Apaixonado, Danilo começou a achar ela a mulher perfeita. A mais linda do mundo. Com só um defeito, no entanto: Sílvia era casada. 

Com o tempo, os temores e incertezas dela o fizeram perceber que, por mais próximo que estivesse dela, ele não podia alcançá-la. Estava a milhas de distância. 

Vida que passa, coisas que mudam. Namorada Danilo já tinha, e filhos logo ele veio a ter também. Casamento, casa, mudança. Novos trabalhos, novas amizades. Adeus, Sílvia.

Adeus?

Talvez não. Lá no fundo do coração, provavelmente não.

Quase duas décadas depois, já bem estabelecido, tudo transcorria bem para Danilo - exceto seu casamento, sempre em altos e baixos, por que será? Mas os negócios da empresa em que era sócio iam de vento em popa. Até o dia em que, ao pegar uma estrada para atuar como representante em uma reunião no sul... o fatídico desastre. O acidente na pista cheia de curvas sinuosas. Uma carreta que não via a hora de ultrapassar, e uma outra descendo em direção contrária... Pancada. Estilhaços.

Fim. Das coisas como antes eram.

Enquanto iam deslizando na caminhonete de Cláudio, rumo à cidadezinha do interior de Minas onde o Google havia apontado uma pista praticamente certeira do paradeiro de Sílvia (seu último trabalho, antes de se aposentar), ele e Bianca discutiam acerca da "metodologia" revolucionária, adotada nas técnicas neurais de reabilitação de um certo Dr. Rudolf, o austríaco.

- Mas Bianca, meu bem... teu pai e essa Sílvia tiveram mesmo alguma coisa pra valer? Como é, foi algo mais profundo?

- Não sei, Cláudio. Só Deus. Do jeito que ele ainda 'sente' ela, quem sabe, né? Apesar do teleneurotrônico refletir na maioria das vezes os anseios e sonhos... pode ser que tenham tido algo. Ela mesma pode esclarecer, se quiser. Só sei que minha mãe sempre morreu de raiva dessa mulher, de vez em quando pegava meu pai olhando pra umas fotos dela.

- Pois é. Porque você sabe: a técnica Rudolf envolve o quase contato direto da pessoa ou objeto da mentalização com o paciente. E quanto mais intensa tiver sido essa relação antes dos traumas, melhores os resultados. Lembre-se que vamos tentar elevar ao máximo a frequência da mente de seu pai, das ondas delta para as ondas alfa, e inverter o sinal de transmissão do teleneurotrônico para que o seu pai receba imagens na mente dele, ao invês de emiti-las... imagens que deverão sair direto da mente da Sílvia para a dele! E temos que logo em seguida retorná-lo para o estado alfa, de forma a conseguir o máximo de força de estimulação regenerativa.

- Sim, Cláudio. Claro que eu sei que a intensidade disso vai depender dos pensamentos e sentimentos dela também. Ela vai enviar para ele o que ela tiver, o que ela sentir lá dentro. - refletiu Bianca, bastante pensativa.

- Bianca, se não voltarmos ele para as ondas delta novamente, a tempo... você sabe que os resultados poderão ser catastróficos. A mente dele vai se desorganizar todinha. A área das emoções e lembranças poderá ser toda prejudicada. Perderemos todo os avanços que tivemos. - argumentou Cláudio.

- Tudo bem. Vamos tentar, mesmo assim. Não tivemos grandes avanços até hoje, Cláudio. - respondeu Bianca, em tom sério.

Basicamente, o que ambos estavam a caminho de tentar fazer era isso: buscar e convencer a mulher que um dia Danilo amou para, conforme suas próprias emoções, promover um novo encontro entre eles... no subconsciente de seus sonhos.


***

Depois de um dia quase inteiro de viagem, ao chegarem no endereço indicado, Bianca e Cláudia se deparam com uma propriedade imponente, de muros altos e rústicos, feitos de pedra, como já há muito não se via. Detrás deles, parecia haver um jardim magnífico, de um bucolismo primaveril envolvente, com altas e frondosas árvores por todos os lados. Apenas bem detrás de uma imensidão de galhos é que dava para avistar, alguns metros mais à frente, a parte alta de uma grande casa, pintada em tons pastéis esmorecidos pelo passar do tempo, no que nitidamente se revelava um sobrado, figurando uma bela sacada com a porta cerrada.

Alguns metros à frente de onde pararam a caminhonete, conseguiram visualizar então o que seria a entrada para a casa, um pequeno portal que dava para uma pista relativamente estreita e toda jardinada, ladeada por muros cobertos de trepadeiras. Ela conduzia, após alguns metros, a uma velha e pesada porta de madeira, pintada de azul. 

Ao chegarem de frente para essa porta, começaram a procurar por alguma campainha ou algo que pudessem tocar para se anunciar.

- Nossa, esse lugar aqui parece estar abandonado há séculos! - resmungou Cláudio. 

E enquanto olhavam por todos os cantos próximos daquela porta, repleta de folhagens ao seu redor, Bianca começou a se deixar tomar, cada vez mais, por uma sensação de melancolia, que já vinha teimando em dominá-la durante toda a viagem.

Tomada talvez pelo ambiente verde e bucólico que se assemelhava ao da primeira escola que frequentou, ela teve um revival de todos aqueles momentos e emoções pelas quais passara com aquela pessoa que a fazia estar ali, agora. Seu pai.

***

Sua mente foi inundada por memórias.

De repente, ela estava de volta ao jardim de infância, aonde ele tantas vezes fez questão de levá-la, apesar da correria de seu serviço. "Papai te ama, minha princesa linda. Vem cá. Tua mochilinha cabe no nosso carro, mas o meu amor por você não cabe no meu coração."

Você era tão pequenina, e cabia todinha em meus braços. Eu queria poder sempre te segurar assim, todinha em mim. E papai sempre estava te levando de carro quando tua mãe não podia, os compromissos dela na escola onde trabalhava, tão atarefada. E aquela boneca Suzy que você não conseguia nem segurar que caía, era quase do teu tamanho porque você deu birra pra comprarmos pra você, mas você quase não conseguia carregar? "Eu levo pra você, meu anjo." Papai carrega. 

Porque papai carrega todas as dores da vida, e chora escondido no banheiro com todas elas. Por você, pelo futuro que sempre sonhou pra você. E o futuro que... um dia... ele sonhou pra ele também. 

Mas pra você, Bianca anjinha, não existe dor. O sacrifício mais doloroso para o papai te ver feliz, é um prazer. Se for pra te ver sorrir, papai nem sabe o que é sofrer. Aquele teu primeiro namoradinho, aquele rapaz que veio te visitar em casa, todo trêmulo, lembra? Papai veio pra cumprimentar, mas odiando aquela situação - estava com meu coração moído. Sofrido. Chorando. Doendo por dentro como o inferno. Porque sabia que a menininha linda do coração do papai estava se tornando uma mulher, e papai nada podia fazer. Coração de dor. Mas coração de consentimento. Coração complacente e tristemente conformado. 

De amor de pai.

Papai reza por você, minha filha. Papai só quer te ver feliz. Sangue do meu sangue. Carne da minha carne. Que Deus te abençoe e te guie. Agora e sempre.


Bianca lacrimejava todas essas lembranças. E, apesar de toda a estranheza de ver no teleneurotrônico os desejos e ilusões de seu pai, por uma outra mulher... meu Deus, como renegar o amor que uma pessoa sente tanto por outra?

Estudante de psiquiatria quase formada, sabedora das coisas da mente que influem nas coisas do coração, ela vislumbrava todos os percalços por amor que o seu pai havia sofrido, reles consequências de sentimentos mal resolvidos. De tempos perdidos que, talvez... se alterados pela lei do desejo, não deixariam o seu pai estar numa situação tão penosa como aquela em que ele se encontrava agora.

- Aqui, Bianca! Aqui! Achei! Tem um interfone aqui! - gritou Cláudio, após muito tatear atrás das folhagens próximas à porta.

Tocaram várias vezes. Nada.

Estavam quase desistindo e indo procurar alguma outra maneira de falar com alguém ali, buscar alguma lista telefônica da cidade e ver se havia algum número existente para aquele mausoléu, quando Bianca falou:

- Espera aí. Deixa eu tentar só mais uma vez. A última.

E tocou o interfone longamente. Ficou o segurando por quase um minuto.

- Bianca, chega! Que isso! Não tem ninguém. - se exasperou Cláudio.

Subitamente, uma voz grave e profunda responde:

- Pois não?

Um sorriso resplandecente e vivaz irrompe na face de Bianca, que olha vitoriosa e matreira para o rosto surpreso e vidrado de Cláudio.

- Boa tarde! Meu nome é Bianca Almeida. Eu sou estagiária de psiquiatria e estou trabalhando em um projeto científico com meu namorado Cláudio, neurologista, que está aqui do meu lado. Precisamos de alguém especialista em sistemas para nos ajudar no que estamos desenvolvendo, e recebemos excelentes referências da Sra. Sílvia Campos. Precisamos muito conversar com ela! Ela se encontra?

Alguns segundos de silêncio paralisam o ar. Parecia que, do mesmo modo fantasmagórico que a voz surgira, ela desaparecera.

O suspense. E, repentinamente:

- Sinto muito. Sílvia Campos não mora mais aqui.

Como assim? Bianca se indignou. Todas as pistas estavam certas. Não era possível que ela tivesse se mudado.

- Mas... veja bem. Precisamos muito dela mesmo! Só ela pode ter a solução para um impasse seríssimo no sistema que estamos desenvolvendo. Não poderia nos informar aonde ela se encontra, para que possamos ir atrás? - disse Bianca, exaltada.

Após mais alguns minutos de hesitante silêncio, a voz do outro lado respondeu, quase robótica.

- Sinto muito. O Sr. Raul não me autorizou. Passar bem. Boa tarde.





Ele era apenas um mordomo. E Sílvia sabia que Raul era o marido de Sílvia. Ela se lembrava de conversas sobre como ele era doente de ciúme. Estava escondendo a mulher.

Bianca se revolta, começa a tocar furiosamente o interfone de novo, Cláudio tenta em vão acalmá-la. Nada. Nenhuma resposta. Fim de papo.

- Não pode ser! Não pode! Eu não vim aqui pra voltar de mãos vazias! - esbraveja ela.

- Bianca! Calma, meu bem! Deve haver um outro jeito! Vamos tentar encontrá-la de outra forma!

Ela olha para os lados. Avista numa casinha da frente, do outro lado da rua, uma senhora de cabelos branquinhos, observando eles com curiosidade por uma janela entreaberta.

Bianca pega na mão de Cláudio, agitada.

- Vem cá. Vamos ali naquela casa.

A senhorinha, chamada Ana, os recebe atenciosamente, e eles rapidamente contam a história/desculpa de que precisam desesperadamente de Sílvia para um projeto científico.

Ana então relatou que Sílvia havia ido embora dali - praticamente fugido - há mais ou menos um ano. Ela tinha constantes brigas com o marido, ruidosas, e nos últimos tempos, ele vinha a acusando mais e mais de episódios de traição, pelo que outros vizinhos comentavam. Começou a ficar muito violento. Alguns episódios assustaram Sílvia, filhos já criados e independentes, que resolveu então, numa bela noite, separar uma mala com alguns pertences pessoais, e sumir do mapa.

- Dizem que a Dona Sílvia até trocou de nome, documentos, tudo. Por que o seu Raul ficou doido. Parece que teve um dia que ele tentou até matar ela. - contou Ana.

Nada mais se sabia sobre ela. Havia se tornado uma fugitiva, uma pessoa que provavelmente tentava, agora, reinventar sua própria vida.
Agora então, tudo havia ficado difícil de novo.

Bianca agradeceu, desoladamente pegou na mão de Cláudio, e foi o acompanhando até a caminhonete, enquanto dialogavam.

- E agora, meu bem? Não tem mais jeito, né?

Bianca olha para ele com certa expressão de desprezo.

- Ué. Tem. Claro que tem. Para tudo há um jeito. Só não há para a morte.

Cláudio arregalara os olhos.

 - Eu me lembro de ver algumas anotações do papai... sobre lugares aonde ele gostaria de ir, até morar, quando fosse mais velho. E tinha o nome dela rabiscado em uma das folhas! Vamos ver. Talvez a Sílvia tenha ido para um deles.

Cláudio então começa a perder a paciência.



- Meu Deus, mas... Bianca, você tem noção do que você está planejando? Nós estamos no terreno das incertezas! Você tem umas folhas antigas dobradas com ideias do seu pai no passado, uma mulher que desapareceu, não quer ser encontrada, que o marido milionário já deve estar caçando, pagando gente pra ir atrás, e talvez nem ele consiga achar! E pior, uma pessoa que você nem sabe se vai colaborar, numa experiência que pode vir a simplesmente não dar certo! Bianca, vai me desculpar, mas não é melhor parar com isso? Já viemos até aqui, pronto. Aceita as coisas. ISSO É LOUCURA!


Bianca calmamente se vira para ele, antes de abrir a porta da caminhonete, o fita nos olhos, e fala, serenamente:

- Olha, se loucura for ter que fazer de tudo pra tentar tirar o meu pai daquela cama de hospital, sim. É loucura, estou louca sim. Você não precisa mais me acompanhar, se não quiser. Apenas tenha a dignidade de me ajudar lá no centro experimental, assim que eu aparecer por lá com a Sílvia. Eu sei que eu tenho um longo caminho pela frente, agora. Mas eu amo meu pai, Cláudio.

"E onde há vida, há esperança."

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

OS 264 DO CONGRESSO E NEYMAR SÃO UM TAPA NA CARA DO POVO BRASILEIRO

Foram os assuntos mais comentados desta semana de 31 de julho a 4 de agosto de 2017.

Estiveram presentes em conversas de boteco, universidades, escritórios, filas de bancos, mesas de refeição, e onde mais você puder imaginar.

A votação dos deputados federais, que livrou a cara do presidente Michel Temer de denúncias de corrupção, acerca de uma mala de dinheiro e tráfico de influências, que seriam analisadas pelo STF caso seguissem, esteve na pauta do dia de muita gente, mas a bem da verdade, não surpreendeu nada. 

Era teatro. Jogo de cartas marcadas. 

No dia anterior, Temer já havia percorrido a via crucis do desespero, suando dinheiro em acordos de verbas e subvenções para as propostas de diversos deputados, bancada ruralista, e ameaçando de expurgação aqueles da base aliada (PMDB) que não votassem para barrar o andamento do processo. Tudo amplamente noticiado.

A Rede Globo - que ninguém ainda entendeu bem porque mudou de lado tão bruscamente, visto que era só oba-oba quando do desembarque de Temer no Planalto, e depois quis jogá-lo na fogueira das denúncias - gastou horas de sua programação em mais um espetáculo deprimente de sua retransmissão das imagens da TV Câmara (cancelou até a novela, heresia!), exibindo um monte de fantoches parlamentares comprados, dizendo 'sim' para barrar o seguimento do processo. Serviu, pelo menos, para dar melhor amplitude aos gritos de inconformismo das outras 227 figuras que se atreveram a dizer 'não'.

Conforme já citado anteriormente neste blog (ler aqui), é de se admirar que tenha tudo transcorrido tão normalmente na mídia e nas esferas do poder, visto que tempos atrás fazia-se o maior estardalhaço com o escândalo do tal 'mensalão'. Que era às escondidas. E agora, o repasse interesseiro de grana aos membros do Congresso acontece na luz do dia, e parece que é tudo bem normal.

Desilusão da população, que não aguenta mais protestar e está deixando as coisas acontecerem naturalmente, dizem alguns. Tá errado. Agora é que as panelas e os patos amarelos tinham que cantar bonito nas avenidas. 

Esse comodismo vai custar caro aos nossos bolsos. Serão anos e mais anos, daqui para frente, de aumento de impostos, juros lá no céu, e inflação doentia. Investimento nas bases sociais e desenvolvimento sustentável, nada. Só promessas vazias. Não precisam pensar que a política marota do "arrocha imposto" de seu Henrique Velhaco Meirelles vai solucionar magicamente os nosso problemas, porque não vai. Olha aqui pra cara dele de raposa-disfarçada-de-moleque-sapeca 👇, e me diz.  Vai? 

Mas vejamos. Talvez, a agricultura realmente salve o Brasil. Se Temer vai "investir" tanto na produção rural, e com a reforma trabalhista aí, na crista da onda, certamente os grandes produtores rurais vão garantir estrutura de subsistência digna para todos os seus empregados, inverter o fluxo migratório que saía dos campos para as cidades (todo mundo vai voltar a viver e trabalhar na roça, vai dar tudo certo), e os banqueiros obviamente ficarão bonzinhos e garantirão financiamento com juros bem suaves para alavancar todas as lavouras, de forma que tudo ocorra bem e a situação precária de nossa balança comercial e fiscal se resolva. 

E pra que tanta preocupação com casas, hospitais, escolas? Nas cidades já está tudo controlado, o empresariado está dando conta de tudo, e a carga tributária não é lá tão pesada assim. O Poder Público não precisa nem esquentar a cabeça...

Ah! E as rodovias fodidas, infestadas de carreta com motorista rebitado, matando quem atravessar o caminho, tudo bem também. Tem problema em estimular o escoamento da produção na malha ferroviária (deficitária) não. Tudo beleza. Alguém uma hora ainda vai apontar um índice de que isso é bom para o nosso controle demográfico (tem que equilibrar o tanto de gente que nasce com o tanto de gente que morre). 

Correto? 

Quanto a Neymar... hum...

Esse foi mais assunto ainda do que os deputados, pela dinheirama que vai faturar agora com o contrato do Paris Saint German. É dólar que não acaba mais.

Astros do futebol bilionários: essas coisas chamam a atenção do brasileiro. Mexem mesmo. Afinal, é o país do futebol (ou pelo menos era, antes daquele fatídico 7x1 da Alemanha na última Copa).

Sempre bom e interessante ver um talento aqui da terrinha sendo bem reconhecido lá fora, logrando uma fama descomunal. Mas, diante das mazelas que vivemos em nosso país - e que não precisávamos mais viver - tantas cifras assim chegam a nos agredir.

OK, ele é apenas um jogador de futebol e não tem nada a ver com isso, certo? Ele não precisa levantar bandeira alguma, pois está só fazendo a vida, e possui preocupações bem diferentes daquelas de nós, cidadãos comuns, que temos que levantar cedo pra trampar ou estudar todo dia, contar os centavos para pagar as contas, e cuidar da prole ou dependentes na maior garra. Preocupações mais divergentes, até, do que romance com Bruna Marquezine ou sei-lá-quem, que a mídia vive querendo empurrar na gente como se fosse mais uma novelinha-conto-de-fadas da vida real. 

O cara simplesmente carrega o título de um dos melhores do mundo no que faz. E pronto.

Mas jogador de futebol tem que ter responsabilidade social? Não sei. Existe o Instituto Neymar, no Rio de Janeiro, que acolhe cerca de 2400 garotos menos favorecidos que querem aprender a jogar bola. Pelo tanto que ele vai ganhar agora, acaba sendo pouco. Mas isso é problema dele. O dono da grana é quem sabe o que faz com o dinheiro que tem.

Apenas dói (e muito), na nossa ainda judiada e escorraçada baixa auto-estima, de povo latino-americano e subdesenvolvido da república de bananas, o fato de vermos um cara receber R$ 308.333 por dia, enquanto profissionais tão valorosos para o nosso belo quadro social continuarão ganhando uma miséria, e penando diariamente para sustentar os outros dribles - muito mais talentosos, diga-se - daquela galerinha dos 264 do Congresso.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O 3º LUGAR PODE SURPREENDER...
por Robert Gillan
John Entwistle, Roger Daltrey, Keith Moon e Pete Townshend: The Who

(Este post é dedicado aos amantes da boa música pop rock, de agora e sempre!)

"I look pretty tall
But my heels are high..."
(Substitute, 1965)

O cara falando que parece alto, mas são os saltos do sapato que deixam ele com essa aparência. Puta letra que expressa bem os sentimentos de rapazes que se sentem inferiores diante de outros mais altos ou bonitões, que fazem mais sucesso com as garotas. O expressivo psicodrama de descoberta das decepções, traduzido em música e letra de sensibilidade e força juvenil diante das duras realidades da vida. O rock tocando o dedo fundo na ferida dos garotos que experimentaram a dor do amor rejeitado.

Na santíssima trindade do rock britânico dos anos sessenta, um terceiro e honorável lugar se destaca como uma das mais poderosas e trovejantes forças musicais do rock and roll de todos os tempos!

Nós tínhamos The Beatles, em primeiro. Tínhamos The Rolling Stones, em segundão. E tínhamos, enfim, The Who!

E bem de acordo com o que estabelece o parágrafo inicial de nossa análise, o que os outros tinham em termos de talento, carisma, pura sorte, dinheiro ou energia, os caras do Who compensavam com um outro tipo de dom: esbanjavam extrema sensibilidade e identificação com seus fãs, nas angústias existenciais da juventude.



"Hope I die before I get old" (Prefiro morrer antes de ficar velho)
(My Generation, 1965)

Havia, sim, uma força primal de rock em estado bruto, na hora em que aqueles quatro rapazes se juntavam para tocar: Pete Townshend (guitarra, vocais), Roger Daltrey (vocais), John Entwistle (baixo) e Keith Moon (bateria). O som deles, inicialmente um amálgama de pastiches do rythim n' blues e soul americano da Motown, logo foi se tornando bem pauleira. Mas era também nas letras de Townshend - um verdadeiro poeta do ideário adolescente, que sabia do que falava quando discorria sobre os dilemas da "espinha na cara" - que residia uma das principais virtudes da banda, um dos grandes motivos de seu sucesso com a galerinha da época.

Além dos problemas emocionais dos fãs, retratados em suas músicas, o Who também tinha uma linguagem e um enfoque tipicamente britânicos, com sotaque de proletariado, que os aproximava muito do fã médio de rock daqueles tempos. Falavam para o povão. Poderíamos dizer que, à parte todos os lances de marketing do heavy metal, e colocando em um outro contexto a época em que começaram a fazer sucesso, o Who equivaleria a um Iron Maiden dos anos 60 - dada a extrema devoção e o caráter de messianismo que adquiriram com seu cada vez mais crescente séquito de fãs. Simplesmente se tornaram uma quase religião para os seus admiradores. Shows que lotavam, e discos que vendiam, cada vez mais.

Quando se lançaram como The High Numbers, em 1964, ainda rezavam estritamente na cartilha do movimento mod da época - um universo de bandinhas de Londres e cidades vizinhas que enalteciam o culto à imagem de terninhos bem cortados, motonetas, anfetaminas e bailinhos de final de semana, em contraponto às chatices da escola e dos empregos de "bico", para ajudar os pais ou responsáveis nas contas da casa. Esse era o universo teenager britânico de classe média e média baixa da época, e os futuros membros do Who vinham dessa realidade! 

Foi com a ajuda de dois empresários que já andavam de olho neles (Chris Stamp e Kit Lambert), que os rapazes deram uma remodelada no som e no visual, em 1965, adicionando mais agressividade, originalidade e rebeldia pop à sua imagem: o novo nome adotado, The Who ("O Quem") assumia uma postura de ironia e sarcasmo diante das agruras de diversas outras bandas que se tornavam famosas da noite para o dia, e logo caíam no ostracismo novamente. A partir dali, se colocavam como pop stars sensacionais, mesmo sem grandes montantes de dinheiro para se promover, numa piada infame com a sentença: Who is hitting the big parade? ("Quem está fazendo sucesso?").

Com uma trinca matadora de singles, lançados um após o outro: "I Can't Explain", o eterno hino deles "My Generation", e a atordoante "Anyway, Anyhow, Anywhere", começaram a cravar seu nome na galeria dos heróis do rock. Pronto, apenas algumas semanas e já estavam fazendo parte daquela primeira grande leva de bandas do que se convencionou chamar Invasão Britânica - movimento capitaneado pelos grupos revolucionários Beatles, Rolling Stones e Animals, que agitariam as paradas de sucesso do Reino Unido para logo tomarem o restante do mundo com uma rapidez sem precedentes, piores que os vikings.




'My Generation', o hino da banda, em sua versão original (1965)

Mas o simplismo desses hits iniciais logo daria vazão a um talento invulgar e diferenciado, à medida em que os rapazes da banda iam revelando as características individuais que contribuíam na intensidade de sua coesão. 

Entwistle era o cara sério, soturno, mal se mexia no palco, mas o seu baixo colossal era o verdadeiro alicerce do som do grupo, sua estrutura principal, uma coisa monstruosa de tão bem tocada, preenchendo tanto todos os espaços, que eles nunca precisariam de um segundo guitarrista para as bases! Roger Daltrey era o crooner perfeito, bem aparentado e carismático, com uma voz rasgada e um novo jeito de gingar e girar o microfone, que logo se tornaria uma das marcas registradas do grupo. Keith Moon era o porralouca, demente e debochado, uma fera tão absurda e neurótica na bateria e nas macaquices durante os concertos, que as suas pirotecnias e loucuras na vida pessoal dariam uma outra dimensão ao termo "megalomania". E Pete Townshend... bem, esse era simplesmente o mentor, o gênio incompreendido, um compositor e letrista de mão cheia, confuso e iluminado ao mesmo tempo, doce e amargo, furioso e outras vezes calmo, mas sempre uma potência versátil e feroz em seu instrumento, a guitarra.

De 1966 em diante, The Who expande os seus horizontes musicais, passando a rivalizar com as outras grandes bandas da época numa série de lançamentos transgressores, que flertam com a psicodelia e novas formas de expressão: os singles "Happy Jack", "Pictures of Lily", e o álbum The Who Sell Out (1967), que simula um programa de rádio pirata, com os hits "I Can See for Miles", "Tattoo" e "Relax".

'I Can See for Miles' (1967)

Logo chegariam à concepção marcante das obras conceituais estendidas, as várias músicas juntas contando uma longa história: a ópera rock! E então viria o marcante, ambicioso e iconoclasta projeto Tommy, de 1969 - a saga de um jovem cego, surdo e mudo que se torna uma verdadeira lenda do jogo de pinball ("pebolim"), e se constitui numa autêntica crítica à hipocrisia das relações, aos cultos e meios de comunicação de massa. Várias canções se uniam no fio narrativo da desvairada e surpreendente jornada do jovem Tommy, em busca da salvação. 

O saldo desse lançamento para a banda foi tão positivo, revelando a sua acurácia e criatividade para reinventar a linguagem da música pop da época, que eles passaram a ter que simplesmente executar todas as músicas do disco, como se fosse uma verdadeira peça teatral inteira, por todos os palcos por onde passariam, desde então. Tommy foi encenada por outros grupos musicais, e chegou a virar musical da Broadway, anos depois. Elevou o Who a um status nunca antes pensado por eles próprios, empurrando eles para a composição de mais uma grande ópera rock (Quadrophenia). E canções como "Sensation", "I'm Free" e o gran finale "We're Not Gonna Take It/See Me, Feel Me" - tocada com vigor e maestria pela banda nos festivais de Woodstock e Ilha de Wight - eternizariam o grupo no imaginário mundial.

See Me, Feel Me - Festival de Woodstock (1969)

Em 1971, viria um novo projeto, que de tão maluco acabou não sendo finalizado em seu conceito original, mas se tornaria um dos melhores discos da carreira da banda: Lifehouse, que se converteu no álbum Who's Next. Novos petardos: "Baba O'Riley", a belíssima "Behind Blue Eyes" e "Won't Get Fooled Again", mais um pesado hino do grupo, crítica severa aos falsos gurus da mídia e seus seguidores embasbacados.

Behind Blue Eyes (1971)

Logicamente, quatro personalidades tão fortes e expressivas logo passariam a ter certos problemas com o conflito de egos. Em decorrência disso, seguiriam a década de 1970 enfrentando alguns solavancos, tentativas de carreira solo (e até incursões no cinema, com Daltrey como ator), mas a amizade sempre falava mais alto, e acabavam retornando em mega-turnês estupendas e lucrativas, arrastando multidões para estádios lotados.

Em 1977, um longa-metragem de grande sucesso, produzido pelo próprio grupo, passa a limpo os grandes momentos da trajetória deles até então (The Kids Are Alright), e no ano seguinte, a notícia mais chocante de todas, aquela que deixaria todos os fãs da banda arrasados até hoje: o doidão-mor do grupo, o baterista Moon, resolve ir tocar baquetas em outro espaço dimensional, e nos deixa após uma overdose dos medicamentos que ele estava usando para se livrar do alcoolismo. Uma perda que nunca seria completamente superada pela banda.

Continuam tentando manter o mesmo ritmo nos anos 80 e 90, sempre se reafirmando como uma das mais longevas bandas do rock de todos os tempos. Grandes turnês triunfais de revival e retorno se seguem umas às outras, até que em 2002 é a vez de outro mestre partir: John Entwistle empacota, vítima de ataque cardíaco, exatamente um dia antes do início de mais uma digressão norte americana do Who.

E então, acabam sobrando apenas as duas lendas da guitarra e vocal: Pete Townshend e Roger Daltrey. E essa é a formação que continua segurando a bandeira do grupo, com a ajuda de substitutos.

Eis eles aí, na estrada até hoje! 

Em 21 de setembro deste ano, eles tocarão pela primeira vez no Brasil, no evento São Paulo Trip, demonstrando o vigor de seus cinquenta e tais anos de carreira. 

E apesar de muita gente achar que estão descaracterizados, pois são apenas metade da banda que eram, e que estão muito tiozinhos, não há como negar: The Who é uma instituição viva do rock, e vê-los ao vivo, e agitando ainda, é uma experiência histórica e monumental.